Artigo desvenda padrões de espalhamento de variantes do SARS-CoV-2 na América Latina e Caribe
Fruto da Rede Regional de Vigilância Genômica da COVID-19, estabelecida pela OPAS para cooperação entre países da América Latina e Caribe para vigilância do coronavírus SARS-CoV-2, um artigo publicado em 2024 traz modelos para entender a dispersão do vírus na região.
A América Latina e Caribe, foram regiões criticamente afetadas pela COVID-19, onde variantes virais preocupantes surgiram. Desta forma, entender como essa dinâmica ocorreu é importante para localizar pontos críticos de disseminação , de forma a permitir campanhas de conscientização e projetos de saúde pública voltados a estas localidades, além de reforçar a vigilância nestes pontos em futuras crises de saúde.
Com base na análise de 296.286 genomas coletados por membros da Rede Regional entre fevereiro de 2020 e março de 2022, em 41 países, os pesquisadores conseguiram identificar alguns padrões do vírus e suas variantes no espaço e no tempo. Em 2020, diferentes linhagens descendentes da B.1 foram prevalentes na região da América Latina e Caribe, com um cenário com mais variantes ocorrendo em 2021. Neste segundo período, houve predominância da variante Gama, com um número aumentado de casos. A Gama dominou os territórios do Brasil, Bolívia, Paraguai, Uruguai, as Guianas e as Pequenas Antilhas na primeira metade de 2021, enquanto o mesmo período foi marcado pela dominância da Lambda no Peru e da Mu na Colômbia. Durante a segunda metade do ano, porém, a Delta passou a dominar o cenário em todos os países analisados. Interessante analisar que, exceto pela Venezuela e a Guiana, essa dominância da Delta não levou a um novo aumento no número de casos. Entre o final de 2021 e 2022, a chegada da variante Ômicron marcou uma nova substituição na variante de dominância epidemiológica. Esta variante também foi responsável pelo aumento no número de casos.
Dentre os achados do estudo, está também o fato de que o modelo evidenciou o papel da Colômbia e Venezuela em servir como ponto entre a América do Sul e a região da América Central e do Caribe. A proximidade da Venezuela com a Amazônia brasileira, onde a variante Gama surgiu, fez com que as movimentações de pessoas entre os três territórios agissem como um provável fator de introdução desta variante nas Pequenas Antilhas. O artigo também permitiu observar que o impacto de restrições de voos internacionais tiveram um efeito na contenção do espalhamento do vírus, ainda que a manutenção de um número basal de voos em alguns momentos tenha permitido a introdução de variantes em territórios onde elas ainda não haviam circulado. Mesmo levando em conta que essas introduções tendem a ser menos rápidas e expressivas do que em períodos sem restrições de voo, este efeito de manter a movimentação de pessoas entre diferentes países foi relevante na dinâmica do coronavírus na região, em especial entre países próximos, onde é possível transitar por meios de transporte terrestre.
Gräf, T., Martinez, A. A., Bello, G., Dellicour, S., Lemey, P., Colizza, V., … & Leite, J. A. (2024). Dispersion patterns of SARS-CoV-2 variants gamma, lambda and mu in Latin America and the Caribbean. Nature communications, 15(1), 1837.